Não se consegue prever os próximos capítulos, nem quando a turbulência vai passar

A crise política entre o governo e o Congresso inseriu o imponderável na economia brasileira. Não se consegue prever os próximos capítulos, nem quando a turbulência vai passar. E esse temor assombra os agentes econômicos, do consumidor ao empresário. Dólar nas alturas — ontem, durante as negociações, a moeda americana atingiu a máxima de R$ 3,571 —, juros de longo prazo subindo e mais baques na confiança do país são os efeitos concretos da turbulência política, dizem economistas.

— (A crise) é um multiplicador de incertezas — resume o ex-ministro da Fazenda Marcílio Marques Moreira.

Armando Castelar, da Fundação Getulio Vargas (FGV), completa:

— A crise paralisa o país até se definir para onde ela vai. É o imponderável.

Do ponto de vista do mercado financeiro e, mais especificamente, do investidor estrangeiro, o fator mais importante é o ajuste fiscal, já que há o temor de perda do grau de investimento se a dívida pública não começar a estabilizar, e posteriormente a retroceder, em relação ao Produto Interno Bruto (PIB). A crise política, lembram, tem inviabilizado a aprovação das medidas de ajuste fiscal.

Em crises passadas recentes, como em 1999, quando houve a mudança no regime cambial, e em 2003, com a desvalorização forte do real, o Congresso agiu para dar apoio às medidas mais duras de política fiscal, lembra Castelar.

— A economia precisa de previsibilidade. Crise política tira a previsibilidade. O empresário não sabe por onde pode ser impactado — diz ele. — A crise está amarrando a equipe econômica. O Congresso tem aprovado medidas contra o ajuste fiscal e gastos extemporâneos. Enquanto a equipe econômica tenta empurrar o bolo para cima, o Congresso empurra mais para baixo.

IMPACTO DIRETO NA ECONOMIA

Para o professor de Macroeconomia da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi) Silvio Paixão, a instabilidade política tem impacto direto na economia:

— Não se votam medidas importantes para que a economia saia da recessão. Essas questões políticas impactam negativamente o cenário econômico para os próximos anos. Não vejo recuperação pujante antes de 2018. A recuperação econômica só acontecerá com a melhora do cenário externo.

O diretor que representa o Brasil no Fundo Monetário Internacional (FMI), Otaviano Canuto, afirmou, referindo-se ao cenário político, que “tudo o que prejudica os resultados (da economia) não é favorável”. Ele participou ontem do seminário “A agenda de crescimento do Brasil”, na FGV.

— Quanto mais suave e mais rápido for o processo de aprovação das mudanças legais que permitam uma mudança na tendência de gasto recente, melhor para a economia, para o crescimento — explica Canuto.

Ele ressalta, no entanto, que é preciso ver se a “pauta-bomba é para valer ou não”, em referência aos projetos em trâmite no Congresso, que aumentam os gastos públicos, e defende um consenso geral no país. Mas Canuto afirma que crise política não tira do Brasil a capacidade de cumprir os compromissos da dívida pública, o principal indicador que as agências de risco olham ao classificar o país, apesar de reconhecer que os aumentos de gastos aprovados no Congresso representam entraves.

CONFIANÇA DOS EMPRESÁRIOS

Além do risco de perda do grau de investimento, economistas citam ainda a questão da confiança dos empresários. Aloísio Campelo Junior, responsável pelas sondagens da FGV, é taxativo: a incerteza é inimiga do investimento. As sondagens, indicador que mede a confiança de empresários e consumidores, tiveram uma queda maior do que seria esperado apenas com o cenário econômico.

— A queda da confiança no primeiro trimestre foi além dos fatores econômicos. Não se sabe se o PIB vai cair 1% ou 3%. Há um efeito psicológico importante. A crise política é fonte de incerteza. Há volatilidade nas previsões econômicas — explica Campelo.

Alexandre Wolwacz, diretor da Escola de Investimentos Leandro&Stormer, explica que, para a tomada de decisões no âmbito corporativo, o ambiente político conta muito. Com isso, a incerteza em relação à governabilidade da presidente Dilma Rousseff faz com que alguns investimentos sejam paralisados, o que alimenta ainda mais a recessão.

— Os empresários não confiam na estabilidade jurídica e legal do país, Enquanto houver a suspeita de uma ruptura ou de uma ingovernabilidade política, o investidor vai, no mínimo, segurar os investimentos. Ele vai esperar, e isso acaba travando a economia — diz Wolwacz.

AJUSTE FISCAL SOB RISCO

Atualmente, Dilma amarga a maior reprovação para um presidente desde Fernando Collor, e o Congresso ameaça aprovar aumentos de gastos, o que poria o ajuste fiscal a perder. Essa instabilidade política não permite que se acenda uma luz no fim do túnel, ainda que alguns indicadores econômicos comecem a mostrar pequenos sinais de melhora, como, por exemplo, a balança comercial brasileira.

— Os indicadores de confiança estão nos níveis históricos mais baixos e continuam caindo. Não há perspectivas de melhora. O cenário se perpetua. Estamos vivendo uma recessão muito longa, desde o ano passado. A crise política intensifica e prolonga a crise econômica — afirma Silvia Matos, que coordena o boletim de conjuntura da FGV e está prevendo queda do PIB superior a 2,2%.

Rodrigo Zeidan, professor de Economia e Finanças da Fundação Dom Cabral (FDC), também ressalta o fato de as empresas estarem adiando seus investimentos:

— Tudo de que o mercado precisa é tranquilidade para começar a investir. Essa crise política não transmite confiança. O governo precisa retomar o controle da situação política para fazer as reformas necessárias para a economia andar. Não existe plano B.

O ex-diretor do BC José Júlio Senna espera que apareça um líder que consiga trazer uma união em torno de medidas capazes de fazer o país voltar a crescer:

— Esse impasse político dificulta uma agenda econômica já muito difícil. A crise não está paralisando o país, está jogando para baixo. Estamos andando para trás.

Fonte: O GLOBO.COM