Em menos de um ano, o Rio sediará os Jogos Olímpicos pela primeira vez

Aborrecido com a roça, com as durezas do agreste e com coisas da vida difíceis de explicar, o pernambucano Antonio Manoel do Nascimento embarcou em sua maior aventura. Botou a mulher, dois filhos e os 50 anos de idade para sacudir em um ônibus durante três dias. A pequena Orobó virou poeira e um punhado de lembranças nos 2.280 quilômetros de estrada até a terra prometida: o Rio de Janeiro. Em Rio das Pedras, em Jacarepaguá, a família achou um quarto e sala, onde paga R$ 600 dealuguel. A mulher virou diarista em Ipanema, mesmo bairro em que um dos filhos é porteiro — o outro trabalha como motoboy em um restaurante na Barra da Tijuca. Antonio trocou a enxada pela pá. No campo, sabia plantar, capinar, colher. No canteiro de obras, nada disso lhe servia. Virou ajudante de pedreiro, trabalhou na construção de dois edifícios residenciais e conseguiu uma vaga na Vila dos Atletas, uma das maiores obras na cidade. Com a construção chegando ao fim, o entusiasmo de Antonio arrefeceu. Até quando haverá trabalho? Ele tira o chapéu de feltro marrom e coça a cabeça antes de responder.
— Só Deus sabe. Um cabra velho como eu sem trabalhar, já pensou? Eu, não. Nasci no Dia dos Namorados, a felicidade me acompanha. Pego minha mulher e volto para a roça. O único sonho que eu tenho na vida é trabalhar. Só vim para o Rio por isso. Nunca fui à praia desde cheguei, em 2011— diz, bebendo uma lata de cerveja após mais um dia de trabalho.
Em menos de um ano, o Rio sediará os Jogos Olímpicos pela primeira vez. Nas grandes obras que movem a cidade, somando todas as instalações olímpicas, expansão do metrô, dos corredores de BRT e do Galeão, 35 mil trabalhadores estão empregados, segundo dados da prefeitura e das empresas envolvidas. O cronograma de todas essas construções homéricas se encerra no ano que vem, antes da chegada dos 17.950 atletas e das equipes técnicas das delegações participantes do maior espetáculo esportivo do planeta. Ninguém sabe ao certo o que acontecerá com esse mar de operários.
PROTESTO PROGRAMADO PARA SETEMBRO
A situação é tão preocupante que, em setembro, as categorias envolvidas na construção civil prometem parar as obras do Rio e organizar uma passeata, a princípio no Aterro do Flamengo.
— Precisamos chamar a atenção, pois estamos indo por um caminho horrível. A partir de janeiro, as demissões virão com força total. Técnicos do governo federal nos passaram um cronograma de obras até 2020. A perspectiva era que o desemprego gerado após o ciclo olímpico fosse minimizado pelas construções que estavam licitadas. Mas isso foi antes da Operação Lava-Jato — afirma Nilson Duarte Costa, presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Pesada (Sintraicp).
Em uma sala modesta no número 1.146 da Avenida Presidente Vargas, no Centro, funcionários da unidade sindical trabalham como nunca. O número de homologações assinadas este ano ultrapassou as piores estimativas. Apenas no primeiro semestre, foram 4.500 demitidos. Em todo o ano de 2014, foram 2.800. No sindicato da construção leve, o Sintraconst-Rio, a situação também não é animadora: antes da crise, eram em média 80 homologações por dia. Atualmente, são 150.
Dados da Pesquisa Mensal de Emprego, organizada pelo IBGE, revelam que a construção civil na Região Metropolitana do Rio perdeu 36 mil postos de trabalho de julho de 2014 a julho deste ano, uma retração de 9,5%. No mesmo período, São Paulo manteve-se estável, enquanto na média nacional a queda foi de 5,2%, com corte de 90 mil vagas.
Para Pedro de Seixas Corrêa, professor dos MBAs da FGV e especialista em construção civil, o fundo do poço ainda não chegou.
— As obras já começaram a entrar numa curva descendente do efetivo de funcionários. O pico passou. Muita gente não é do Rio e vai voltar para sua cidade. As consequências não serão sentidas apenas aqui, portanto, mas também nas cidades de origem desses trabalhadores — afirma.
Ele faz uma ponderação: o Rio ainda consegue, apesar das numerosas demissões, sustentar um grande efetivo de trabalhadores por causa das obras que não podem parar. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, do Ministério do Trabalho e Emprego, revelam que, em junho, o estado abriu 1.407 postos de trabalho na construção, enquanto no Brasil o setor fechou as portas para 24.131 trabalhadores, repetindo o resultado negativo pelo oitavo mês seguido. Mas, como diz o professor, a situação ainda favorável do Rio “tem data para acabar”.
— Não temos expectativa de outras obras de mesmo vulto que possam absorver esse contingente. O buraco vai se ampliar ao longo de 2016, até pela redução no número de lançamentos do mercado imobiliário.
Ele tem razão. Segundo a Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi-RJ), 3.045 unidades habitacionais foram lançadas no primeiro semestre deste ano. No mesmo período do ano passado, foram 8.323, uma redução de 63,5%
— Enquanto não houver perspectivas claras de quais rumos o Brasil deve tomar, será um setor incerto. Não haverá espaço para tantos trabalhadores quando as grandes obras forem entregues — argumenta João Paulo Rio Tinto de Matos, presidente da Ademi-RJ.
Como a esperança é a última a morrer, algum alento ainda pode vir do governo do estado e da prefeitura. As autoridades mostram preocupação com a possibilidade de o Rio abrigar, em futuro breve, uma legião de desocupados. Em duas semanas haverá novidades, garante o secretário municipal da Casa Civil, Pedro Paulo Carvalho, candidato do prefeito Eduardo Paes à sua sucessão. Entre elas está a possível licitação de uma estrada ligando a capital a Angra dos Reis ou outra cidade da Costa Verde, como noticiado por Ancelmo Gois em sua coluna no GLOBO.
— Estamos vendo o fim de um grande ciclo de obras na cidade. O importante é que o Rio não parou por causa da crise. Não estamos sendo tão afetados. O impacto é maior na Região Metropolitana — afirma Pedro Paulo.

APOSTA EM AMPLIAÇÃO DE REDE DA CEDAE

No lado do estado, a possível expansão do metrô para Niterói e São Gonçalo é uma das apostas para combater o cenário sombrio. A principal é a universalização do abastecimento de água na Baixada Fluminense, orçada em R$ 3,2 bilhões.
Em meio a tantas incertezas, o ajudante de pedreiro Antonio, do início da reportagem, comemora os 3 meses da neta, nascida no mesmo dia que ele, o romântico 12 de junho. É a primeira geração carioca da família Nascimento.
— Foi uma vitória chegar até aqui — diz.
Continuar não depende apenas dele.

Fonte: O Globo