Com a indústria em um dos seus piores anos e mais dificuldade para fazer caixa, cresce o número de empresas que devem buscar financiamento de bancos para pagar o 13º salário e aumenta o valor do empréstimo que elas pretendem fazer neste ano.

Pela lei trabalhista, a primeira parcela da remuneração extra deve ser paga até o dia 30 deste mês e a segunda, até o dia 20 de dezembro.

O percentual de indústrias paulistas que informaram que terão de recorrer a terceiros para pagar o benefício aos trabalhadores é de 35% –o maior patamar desde 2009, ano em que a economia sofreu o impacto da crise internacional. Em 2014, quando o setor já enfrentava retração nas vendas, 29% informaram que utilizariam crédito para quitar o salário extra.

Pequenas, médias e grandes indústrias pretendem pegar emprestado, em média, 81,3% de suas folhas de pagamento. É o mais alto patamar dos últimos seis anos, quando atingiu 78,4%.

Com estoques elevados e encomendas sendo feitas com atraso, o percentual de indústria que conseguiu provisionar recursos para pagar o 13º (42,3%) é o menor da série histórica da pesquisa da Fiesp (federação das indústrias paulistas), iniciada em 2008. Foram consultadas, 499 indústrias de todos os portes e segmentos.

Oito em dez empresas esperam vender menos em 2015. A previsão é que as vendas de final de ano fiquem 14% abaixo de 2014.

“Este ano já figura como o pior da economia desde há muito tempo. Só a indústria paulista deve fechar 250 mil postos. Em 2009, tivemos perda de 110 mil vagas. O resultado para pagar 13º não poderia ser outro”, diz Paulo Francini, diretor de pesquisas e estudos da Fiesp.

A indústria brasileira acumula até setembro queda de 7,4%, segundo o IBGE. Nos últimos 12 meses (encerrados em setembro), houve corte de 1,239 milhão de empregos -sendo 961 mil na indústria.

O economista Fabio Silveira, diretor da consultoria GO Associados, projeta queda da produção industrial de 8,5% neste ano. “É a maior da série iniciada em 1990, época do Plano Collor.” E chama a atenção para o tamanho da perda de participação da indústria no PIB: em 1991, respondia por 23,4%; neste ano, passou para 10,7%.

Fontes de recursos que serão usadas para pagar 13º – Em %

CATÁSTROFE

“Quem está em situação menos ruim está conseguindo recorrer a empréstimos bancários”, diz Carlos Pastoriza, presidente da Abimaq, associação de fabricantes de máquinas. “Não quero ser catastrofista, mas o final do ano será bem ruim em termos de demissões e de endividamento das empresas, com fornecedores e trabalhadores.”

Entre os metalúrgicos de São Paulo, greves por falta de pagamento de salário já são registradas desde junho. “É algo que não ocorria no setor e voltou a pipocar. Se há atraso para pagar salário, deve haver também para o 13º”, diz Miguel Torres, presidente da Força Sindical e do sindicato da categoria em São Paulo.

A menos de 15 dias para pagar a primeira parcela do 13º, Claudia Maria Inacio, gerente de RH da Megastamp Industrial, estamparia de Mauá (SP), diz que não sabe como a empresa fará o pagamento.

“As vendas caíram 40% desde dezembro. Em 2014 pagamos o salário parcelado em quatro vezes. Neste ano, para ser bem honesta, não faço a menor ideia de como vamos honrar esse compromisso.” Há três anos, a empresa tinha 350 pessoas. Em 2014, passou para 90 e hoje 24, incluindo o setor administrativo. A metalúrgica fornece peças para o setor automotivo, um dos segmentos que registra maior retração nas vendas.

 

Deixe um comentário