A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de reduzir a taxa Selic para 14,25%, anunciada ontem, dia 17 de junho, trouxe apenas um alívio modesto para o setor produtivo. Mesmo com o corte, lideranças sindicais seguem criticando a estratégia adotada, que, segundo elas, há muito tempo prejudica a indústria e a geração de empregos no país.
Uma das vozes mais constantes nesse debate é a de Antonio Silvan Oliveira, presidente do SindiQuímicos Guarulhos e também da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Químico (CNTQ). Suas manifestações contra a política de juros do Banco Central já somam pelo menos uma década, conforme pode ser verificado em materiais publicados pela própria entidade.
Em janeiro de 2016, quando a Selic também estava em 14,25% — o mesmo nível de hoje — Silvan já considerava a situação insustentável. Na época, ele defendia que a taxa deveria cair para cerca de 7% e criticava o governo por priorizar o setor financeiro em vez da produção. Segundo ele, o cenário resultava em “muitas empresas fechando e o desemprego crescendo”. Chegou a estimar que cada queda ou alta de 0,5 ponto percentual na Selic representava um impacto de cerca de R$ 10 bilhões por ano nas contas e custos da economia.
A insatisfação continuou nos anos seguintes. Em dezembro daquele mesmo ano, com a taxa em 13,75%, o dirigente afirmou que o Brasil caminhava para ser “um espaço favorável apenas à especulação”. Na sua visão, o poder público apostava todas as atenções nos bancos, que “não se preocupam em abrir vagas de trabalho, mas sim em reter recursos que deveriam ser aplicados em saúde, educação, transporte, segurança e infraestrutura”.
Com a alta da taxa para 15% ao ano em ciclos posteriores, as críticas se tornaram mais contundentes. Em janeiro de 2025, após o Banco Central elevar a Selic de 12,25% para 13,25%, Silvan declarou: “Os banqueiros e o sistema financeiro é quem acabam mandando no Brasil. Isso é algo vergonhoso”. Ele também comentou que, mesmo com parte da diretoria do BC indicada pelo presidente Lula, a instituição seguia seguindo a lógica favorável aos bancos.
Em junho de 2025, com a taxa já em 15%, sua fala foi ainda mais direta: “A postura do Banco Central é decepcionante. Parece que a indústria não tem importância para o país; quem recebe apoio do governo é o setor financeiro”. Na ocasião, ele mencionou que cada ponto percentual na Selic representa um valor estimado em R$ 38 bilhões em custos ou transferências dentro da economia.
Mais recentemente, em outubro de 2025, quando o Copom decidiu manter a taxa em 15%, Silvan listou os efeitos negativos que enxerga: “Juros altos tornam o crédito mais caro — seja para empréstimos pessoais, consignados ou financiamentos — e fazem o consumo diminuir. Com isso, os investimentos caem, o crescimento do PIB pode perder força e setores que dependem de crédito, como construção civil e indústria, acabam demitindo mais”.
Para ele, a pergunta continua a mesma, ano após ano: “Quem realmente ganha ao manter a Selic nesse patamar tão elevado?”. E a resposta, sempre a mesma: “O governo e o Banco Central continuam trabalhando a favor do sistema financeiro”.
Enquanto analistas do mercado projetam que o ciclo de cortes deve estar chegando ao fim, com estimativas de Selic em 13,75% até o final de 2026, o movimento sindical defende que qualquer taxa com dois dígitos continua beneficiando a especulação em vez da produção e do emprego. É um debate que, como mostra a trajetória das falas de Silvan, já dura mais de dez anos no Brasil.