Sem apoio dos EUA na OCDE, Brasil ‘colhe a maior derrota internacional’, avalia especialista

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Updated: outubro 11, 2019

O governo de Jair Bolsonaro “colheu a sua maior derrota no terreno internacional” com a carta, divulgada na quinta-feira (10), em que o governo estadunidense recusa uma vaga na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) para o Brasil. A avaliação é do professor em Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), Gilberto Maringoni.

“Foi muito maior do que qualquer constrangimento que o discurso na ONU tenha causado ou as negativas do Brasil em seguir a rota dos direitos humanos na Organização das Nações Unidas. Isso porque, toda a lógica da política externa do governo Bolsonaro e do chanceler (Ernesto) Araújo é montada em cima de uma subordinação quase que automática a Washington, ao departamento de Estado e outras designações da Casa Branca”, observou o docente em entrevista à Rádio Brasil Atual.

Maringoni destaca que, desde o início do mandato, o Brasil vem tomando posições “que contrariam a tradição diplomática” para atender aos anseios dos Estados Unidos. Por exemplo ao criar atritos na América do Sul, especialmente com a Venezuela, um tipo de conflito que não ocorria pelo menos desde 1870 com a Guerra do Paraguai. Ainda assim, a estratégia não foi correspondida, como aponta o documento encaminhado à OCDE pelo governo de Donald Trump, que não faz nenhuma menção ou destaca qualquer apoio à candidatura do Brasil, noticiado pela agência Bloomberg.

De acordo com o veículo internacional, a carta confirma a oposição do governo Trump à ampliação de vagas no órgão, que quer garantir o menor número possível de novos membros, e por isso teria reiterado no documento apenas o apoio à Argentina e Romênia. Assim, deixa de lado inclusive promessas feitas pelo próprio chefe de Estado ao presidente Bolsonaro, que sempre o ovaciona.

O conteúdo repercutiu por toda a imprensa do mundo, o que levou o secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, a declarar, pelo Twitter, que a “carta não representa de forma precisa a posição dos EUA em relação à ampliação da OCDE. Nós apoiamos de forma entusiasmada a entrada do Brasil nessa instituição”. Pouco depois, o presidente Trump também veio a público endossar as promessas de apoio de seu secretário.

Mas, para Gilberto Maringoni, especialista em análise diplomática, as declarações vieram tarde e, ao soar como “desculpa”, confirmam apenas uma tratativa no âmbito das relações pessoais, não das relações internacionais. “Ontem a gente levou um tapa na cara, ruiu a lógica da política externa”, destaca Maringoni. “Por mais que Mike Pompeo venha tentar emendar a situação, dizendo que ‘não, nós vamos ver isso para frente, não é bem assim’, o fato aconteceu, o Brasil foi preterido no seu principal pleito, objetivo desde o início do governo.”

Para garantir a vaga do país na OCDE, o governo Bolsonaro ainda abriu mão de algumas das prerrogativas que o Brasil dispunha na Organização Mundial do Comércio (OMC), como o status de preferências tarifárias e tratamento especial nas negociações, sem ser correspondido pelo compromisso dos Estados Unidos. O professor lembra ainda da concessão, unilateral de visto para a entrada de estadunidenses no território brasileiro. Ou ainda, da concessão da Base de Alcântara, no Maranhão, ao país chefiado por Trump sem qualquer contrapartida financeira ou tecnológica.

“O governo Bolsonaro, que tanto se diz nacionalista, o ‘Brasil acima de tudo’, cedeu um pedaço do território para os americanos. Apesar de esses militares de garganta solta viverem falando em nacionalismo, não são nacionalismo em coisa nenhuma, são o que a gente chama de entreguista, eles entregam um pedaço do território, abrem mão.”

Sem o aval documentado dos Estados Unidos para a vaga na OCDE, a lógica de subordinação, de acordo com Maringoni, deixa agora em aberto o tom futuro da política externa brasileira.

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